A ESCARAMUÇA DO TOURO REQUIÃO
Para se entender esta história comovente do Touro Requião é necessário que voltemos ao tempo... Tempo de seu nascimento, adolescência e maturidade, sem que, nenhum pormenor seja esquecido ou deixado de lado, para então, falarmos, da famosa e temida “escaramuça”.
1. O SEU NASCIMENTO
Requião (teve este nome de batismo ao nascer, devido seu dono, Josenildo Palhares, ter escutado numa noite qualquer, a Hora do Brasil, em seu rádio de pilha a menção ao nome do político do Paraná, Jose Requião. Foi amor à primeira vista e, no dia seguinte, batizou o bezerro pelo nome do político), nasceu do cruzamento de uma vaca da raça Gir, com um touro da raça Guzerá. Do lado materno herdou um porte varonil e, manchas vermelhas pelo corpo e, do lado paterno, a envergadura de um campeão. Desde o seu nascimento até o desmame, teve abundância do líquido alvo, quente e saboroso e, claro, altamente nutritivo. Para ele, era sempre deixado pelo Tonico, o leiteiro do sítio, duas tetas, inchadas, repletas de leite, que ele mamava com sofreguidão. Raramente ele precisava dar cabeçadas no úbere volumoso para que descesse mais leite: Cabreúva (o nome de sua mãe), nunca lhe negou o sustento, ao contrário fazia questão de “esconder” o precioso líquido para que ele mamasse mais tarde, antes do “aparte” dos bezerros, no pasto, para este fim destinado. Assim, sempre tratado com toda a atenção e fartura, ele foi se desenvolvendo, até se tornar um garrote que destoava dos demais de sua idade. Josenildo, tinha-o escolhido para ser futuramente o Touro responsável pela cobertura das dezenas de vacas, que lhe davam diariamente o sustento de sua família ( “batia” 120 litros de leite no “Ponto” do armazém do João Correia), bem como manter as despesas do sítio em dia. Tais despesas diziam respeito ao “trato” das vacas; ao milho das galinhas e porcos e à mão de obra usada para roçar os pastos e, manter, as cercas em dia. Nesta boa vida, Requião, foi encorpando e tomando a forma de um futuro touro emprenhador de vacas, que, quando, ao parirem seus bezerros e bezerras, eles herdariam a sua linhagem. E, assim foi até o seu desmame, ou seja, atingir a adolescência e maturidade.
2. A ADOLESCÊNCIA
Dos dois aos seis anos de vida, Requião, se portou algumas vezes como bezerro e, outras vezes (mais frequentes) como pré-touro. Como era o protegido do rebanho, tinha para si tudo o que a vida no sítio podia lhe proporcionar. As travessuras que fazia: escoicear outros bezerros só por prazer; tentar cobrir nas novilhas e, em algumas vacas; saltitar pelo curral, atrapalhando o descanso dos mais idosos; correr atrás de galinhas para chifrá-las( já despontou os chifres, embora ainda pequenos, herança do Guzerá, seu pai), e, assim por diante. Levava uma vida de príncipe e, como tal era por muitos idolatrados, e, pelos invejosos, odiado. Algumas vezes acontecia de um ou dois desafetos, mais velhos, correr em seu encalço, para espetar os chifres pontiagudos em seu lombo macio e vistoso: sempre, desde pequeno, coberto de pelos luzidios. Quando, os animais eram presos no curral para tomar banho de carrapaticida, ou, para retirar bernes(as larvas eram espremidas com os dedos e pela pressão pulavam para o chão, quando eram comidas pelas galinhas, que as disputavam com avidez), Requião era poupado, pois, nunca abrigou carrapatos ou bernes ou, qualquer outro tipo de peste – sangue bom, dizia, cofiando a barbicha, seu dono, todo orgulhoso. Dessa maneira, vivendo como um nababo, Requião, chegou à fase adulta, quando se transformou num soberbo touro, que enchia Josenildo de orgulho, principalmente, quando vinham fazendeiros e boiadeiros de fora, só para ver o belo animal, visto que, nunca esteve à venda, por mais que oferecessem somas graúdas. Requião, sem margens de dúvidas, era o mais belo Touro das redondezas e, sua fama, já tinha ultrapassado os mais distantes rincões... Fama esta que fez seu nome e, presença, serem odiados pelos demais touros da região.
3. A MATURIDADE
Quando atingiu a maioridade sexual, Requião passou a “cobrir” as novilhas e vacas do sítio. Seus primeiros descendentes provaram que ele tinha a “genética” para originar fêmeas. No início, ele tinha que disputar a cabeçadas e chifradas o “harém” com o touro Ferrabrás, já titular do curral há alguns anos. Muitas vezes ele perdeu a batalha, pois, ainda não tinha a força e malícia para dar cabo de uma boa briga, portanto, vez ou outra, quando Ferrabrás não estava por perto ele se aproveitava e dava suas “trepadas” saindo correndo logo em seguida do seu opositor. Porém, com o passar dos anos ele se encorpou; seus chifres cresceram bastante e tinham as pontas afiadas (ele vivia constantemente os afiando nos barrancos); seu peito másculo era provido de fortes músculos, bem como as pernas que lhe permitiam fincar os cascos no chão e suportar as “marradas” do “velho” touro. Para evitar que se ferisse gravemente, seu amo, achou por bem vender o Ferrabrás e, assim, o fez. Agora, rei absoluto de seu harém, ele passou a ter uma vida mais sossegada e, com requintes de galã, de um Dom Juan, ele passou a seduzir as mais belas novilhas e vacas já calejadas no ato do amor. De suas “coberturas” nasciam maravilhosas bezerras, que um dia se transformariam em excelentes vacas leiteiras e, ocasionalmente, alguns bezerros machos, que eram vendidos a outros sitiantes para servirem de touros, nunca de bois de carro. Com tanta atenção tanto pelo seu dono, quanto pelos sitiantes vizinhos que vinham conhecê-lo e para não perderem tempo traziam suas vacas para que ele “cobrisse”, em troca de alguns mimos para o sítio, começou a gerar uma onda entre os demais touros da região de ódio, inveja e sanha assassina. Alguns mais afoitos chegaram mesmo a derrubar as cercas e chegar até o curral para enfrentá-lo e, quem sabe matá-lo. Só não o fizeram porque o curral era construído com grossas taboas de madeira de lei e, também, pelo socorro rápido recebido do atribulado sitiante. Depois que um touro mais destemido conseguiu fazer um buraco no curral e entrar, travando uma terrível contenda com o nosso herói, do qual o invasor saiu ferido e com o rabo entre as pernas, Requião resolveu tomar uma atitude digna de um General da era Napoleônica e, preparou para seus oponentes que porventura viessem a enfrentá-lo uma terrível ESCARAMUÇA, que o ajudou a permanecer vivo até quando pela idade avançada se aposentou e, foi viver em paz na invernada, no meio de seus filhos e filhas.
4. A ESCARAMUÇA
Cansado de tanto ser desafiado para combates pelos touros invejosos que vinham tarde da noite até o curral para desafiá-lo, ele resolveu se precaver e para isto tomou uma decisão significativa que o manteve vivo, até os seus últimos momentos, quando morreu de morte morrida, por envelhecimento.
Foi o seguinte: Numa tarde em que estava pastando placidamente, acompanhado pelas suas queridas vacas, ele deparou com um barranco, no meio de um carrascal, que ficava escondido dos olhares dos mais incautos e, que, à beira, se descortinava um buraco de uns oito metros de altura, em cujo chão ficavam dispostas pedras pontiagudas. Neste local, ele teve a feliz ideia (era muito inteligente e sabido) de se refugiar quando fosse perseguido por este ou aquele touro mais obtuso (os que lhe perturbavam mostraram ser bem menos inteligente que o nosso herói) e, para que o seu plano desse certo, ele fez com os cascos afiados um pequeno caminho por onde poderia passar sem cair no buraco. Constatado que não haveria falha, esperou até que um marrudo qualquer viesse em busca de sua morte, por um combate, geralmente de madrugada, quando o seu protetor estava dormindo a sono solto. E, aconteceu. Era madrugada alta, quando as vacas estavam deitadas à beira do curral, que o touro Serapião, do sítio mais próximo, chegou e com um coice tremendo, abriu a porteira do curral e se dirigiu igual um bólido desgovernado, com os chifres em posição de combate até o Requião, que, sonolento, mascava uma porção de cana. Assim, que Requião, notou o intruso, deu uma guinada e saiu em disparada até o carrascal onde ficava, escondido , o buraco, ou melhor a sepultura. Com gestos estudados ele se colocou numa posição que oferecia o corpo para os chifres do contendor. Aproveitando esta deixa, o touro enfurecido, abaixou a cabeça e se precipitou sobre Requião para desferir o golpe mortal. Pobre e infeliz algoz, que, não previu a ESCARAMUÇA do nosso gladiador. De um salto magnífico ele saiu pelo caminho feito e, deixou que o seu verdugo se atirasse pelo precipício, indo encontrar a morte nas pedras pontiagudas. Feliz, pelo sucesso da Escaramuça, ele voltou para o aconchego do curral. Quanto ao Serapião, foi encontrado dois dias após a malograda aventura, com alguns urubus pousados em sua carcaça. Tal fato aconteceu com mais quatro touros. Depois que seus algozes foram eliminados, Requião, voltou a ter a paz almejada e merecida.
Requião viveu ainda mais uns 15 anos, cobrindo as vacas do sítio e das redondezas. Pelas contas de seu fiel dono, ele deve ter deixado mais de mil filhos espalhados pelos sítios e fazendas do Estado de São Paulo.
Assim, caro leitor, reproduzi a história que me foi contada pelo seu Josenildo Palhares, sem acrescentar ou subtrair nenhum fato. Fica a seu critério torná-la crível,ou, não.
Caraguá, 01 de maio de 2018-05-02
Aldo de aguiar
quinta-feira, 3 de maio de 2018
sexta-feira, 27 de abril de 2018
UMA INEXORÁVEL CONSCIÊNCIA
Hoje, tenho, a inexorável consciência, de ter tido
Uma vida sem ter tido a consciência de não saber,
Que, embora, pensasse, que sabia tudo, de nada, realmente,
Eu sabia.
Tive, infinitas vezes, a sensação que era o que eu queria ser,
Embora, para todos os que me rodeavam, eu, era um inconsciente.
Fui, sem ter sido, e, se não o fui, era, porque, não o deveria ser:
Inexorável consciência.
quarta-feira, 25 de abril de 2018
DOIS LIVROS QUE ME FALTAVAM PARA A COLEÇÃO DE DOSTOIÉVESKI
Felizmente,numa garimpagem de mais de duas horas na Livraria Nobel, no Shopping, em São José, encontrei os dois livros que me faltavam para completar a coleção completa de Dostoiéveski. São eles:
1. UMA ANEDOTA INFAME - DA L& PM POCKET COM 95 PÁGINAS; (TRATA-SE DE UMA SÁTIRA AFIADA E IMPLACÁVEL):
" IVAN ILÍTCH PRALÍNSKI, general e alto funcionário público, tem fama de liberal. Bonito e requintado,um poeta na alma, anda com uma condecoração no pescoço e sonha em ser estadista. Ao sair de um jantar, passa ao acaso na frente da festa do casamento de um de seus subalternos mais humildes e vê aí uma oportunidade de dar a honra de sua bondosa presença ao pobre Pseldonìmov. Mas nada sai como planejado, e sua deferente visita se transforma numa espiral de constrangimento." Retrata a luta de classes da Rússia do século XIX, um de seus temas mais caros. Sarcasticamente revela a visão de mundo de Dostoiéveski: o ser humano apoia seu semelhante ao mesmo tempo em que o esmaga cruelmente
2. HUMILHADOS E OFENDIDOS - MARTIN CLARET - COM 400 PÁGINAS.
Era uma vez um país onde o ardor das paixões sucumbia ao frio dos costumes. Havia naquele país uma cidade bela e lúgubre, onde os ricos se repimpavam no luxo mais ostensivo e os pobres não tinham o que comer. Viviam naquela cidade cinco jovens, dois homens e três mulheres, cujos afetos se entrelaçaram a ponto de formarem um complexo polígono amoroso, proporcionando-lhes uma efêmera felicidade mesclada com muito sofrimento.
Aquele severo país é a Rússia na época dos czares; aquela cidade regida por formidáveis contrastes sociais é São Petersburgo, sua capital esplêndida e miserável. E aqueles jovens que sofrem tanto por amor são protagonistas do romance HUMILHADOS E OFENDIDOS, DE FIODOR DOSTOIÉVESKI.
Construído em formato novelesco, este livro sintetiza a concepção sociológica do escritor russo, bem como sua visão da confusa sexualidade humana, e configura dessa maneira, uma leitura imprescindível para quem se interessar seriamente pela obra literária dele.
Recomendo estes dois livros aos meus seguidores.
1. UMA ANEDOTA INFAME - DA L& PM POCKET COM 95 PÁGINAS; (TRATA-SE DE UMA SÁTIRA AFIADA E IMPLACÁVEL):
" IVAN ILÍTCH PRALÍNSKI, general e alto funcionário público, tem fama de liberal. Bonito e requintado,um poeta na alma, anda com uma condecoração no pescoço e sonha em ser estadista. Ao sair de um jantar, passa ao acaso na frente da festa do casamento de um de seus subalternos mais humildes e vê aí uma oportunidade de dar a honra de sua bondosa presença ao pobre Pseldonìmov. Mas nada sai como planejado, e sua deferente visita se transforma numa espiral de constrangimento." Retrata a luta de classes da Rússia do século XIX, um de seus temas mais caros. Sarcasticamente revela a visão de mundo de Dostoiéveski: o ser humano apoia seu semelhante ao mesmo tempo em que o esmaga cruelmente
2. HUMILHADOS E OFENDIDOS - MARTIN CLARET - COM 400 PÁGINAS.
Era uma vez um país onde o ardor das paixões sucumbia ao frio dos costumes. Havia naquele país uma cidade bela e lúgubre, onde os ricos se repimpavam no luxo mais ostensivo e os pobres não tinham o que comer. Viviam naquela cidade cinco jovens, dois homens e três mulheres, cujos afetos se entrelaçaram a ponto de formarem um complexo polígono amoroso, proporcionando-lhes uma efêmera felicidade mesclada com muito sofrimento.
Aquele severo país é a Rússia na época dos czares; aquela cidade regida por formidáveis contrastes sociais é São Petersburgo, sua capital esplêndida e miserável. E aqueles jovens que sofrem tanto por amor são protagonistas do romance HUMILHADOS E OFENDIDOS, DE FIODOR DOSTOIÉVESKI.
Construído em formato novelesco, este livro sintetiza a concepção sociológica do escritor russo, bem como sua visão da confusa sexualidade humana, e configura dessa maneira, uma leitura imprescindível para quem se interessar seriamente pela obra literária dele.
Recomendo estes dois livros aos meus seguidores.
terça-feira, 24 de abril de 2018
EM TOCA DE JAGUATIRICA PREÁ NÃO ENTRA
Frenegildo Freitas apareceu em Cordoália das Neves em uma noite de escuridão total. A Lua estava em greve. Já por vários dias ela não dava sinais de vida. Os pacatos moradores da Vila evitavam sair à noite para não terem maiores transtornos com algum gatuno, ou então, alguma alma penada, visto que o cemitério “Recanto da Saudade” ficava bem próximo da praça principal. Uma hora ou outra, um mais afoito percorria as ruelas vazias e escuras com passos apressados em busca do abrigo que pudesse protegê-lo dos perigos escondidos nas sombras da noite. Muito raro era encontrar um casal de namorados sob a proteção de uma marquise se entregando às delícias do amor. Foi nesta condição que Frenegildo aportou com seus parcos pertences na pensão “Prato Feliz” de propriedade da viúva Bresália Fortuna. De imediato a matrona tentou induzi-lo a procurar outro local para ele fincar pé, mas, depois de ouvir a sua ladainha ela se condoeu e preencheu o livro de registro de hóspedes dando-lhe o quarto ao lado do único banheiro do imóvel. Por esta noite e as duas consecutivas Frenegildo não deu as caras na rua. Tratou sim, de descansar o corpo moído pela viagem no lombo do burro Praxedes. Só depois que sentiu o corpo e os músculos em ordem e, principalmente as pernas é que ele deu ares ao povinho do lugarejo. Sem maiores preâmbulos chegou ao bar “Alvorada”; sentou-se num banco e pediu um martelo da melhor pinga da região. De imediato, a negra Alfonsina lhe serviu a bebida. Talagada vai, talagada vem e ele indiferente ao movimento do bar e da rua se pôs a mordiscar um palito de fósforo e sem maiores preâmbulos cuspia a saliva pegajosa e escura no piso sujo e encardido do bar. Neste ínterim deu entrada no boteco o anão Gurupita Pedregoso. Desde que o circo “Uma noite em Moscou” retirou os trapos de lona da cidade, o anão resolveu ficar instalado numa das casas da rua “Pintão AthaÍde”, onde o recebeu com carinho a donzela Tetê Carneiro já entrada na casa dos sessenta anos( Nunca se casou, por isto era tida por todos uma donzela). Bem, num piscar de olhos, o intrigante anão perguntou à queima-roupa para o Frenegildo o que ele fazia de melhor. O nosso herói ( ou quase) respondeu sem embaraço algum de que ele era campeão em rabo-de-arraiá. “Rabo-de-arraia?”. Perguntou espantado o gorducho anão. “Isto mesmo”, respondeu Frenegildo sem se dignar a abaixar os olhos e fitar o pobre anão. Como um rastilho de pólvora aceso a notícia percorreu todos os becos; buracos; ruelas; barracos; casas e até mesmo o cemitério se viu tomado pela notícia bombástica a ponto do coveiro Pestanildo declarar feriado no campo santo.
Por uns meses Frenegildo gozou de sua reputação de briguento imbatível em rabo-de-arraia. A primeira demonstração de sua habilidade “rabista” aconteceu numa quermesse na fazenda do Major Fragata. A festa ia de vento em popa quando um valentão cismou de passar a mão nas curvas da donzela Nenê Pintassilgo; moçoila dos seus dezesseis anos e cheia de fricotes. Com gritinhos estridentes ela chamou a atenção do Frenegildo que sem perguntar isto ou aquilo, aplicou um rabo-de-arraia no galanteador que, sem despedir do Major voou por sobre as barracas e foi aterrissar no curral de bezerros, onde ficou a noite inteira e só acordou para mamar nas tetas da vaca Favorita e desde então passou a berrar como um garrote desmamado. A fama de “rabista” de Frenegildo correu o sertão. Tornou-se imperioso conhecer o mais famoso aplicador de rabo-de-arraia das redondezas. E, assim, desfrutando de sua habilidade com as pernas ele foi vivendo e levando a vida em calmaria, até que...
Até que um dia também aportou em Cordoália das Neves um sujeito esquisito. Era esquisito por completo, tanto na carcaça, quanto no gênio. Tinha o corpo disforme. Era pequeno nas partes baixas e avantajado nas partes altas. A pele não tinha classificação de cor: ora era escura; ora era negra; ora era parda, mas, nunca branca. Parecia até que era um camaleão disfarçado de gente. Tinha os olhos encavados no rosto e nunca, mas nunca mesmo brilharam por alguém ou algum fato. Eram frios como os olhos de um urutu. Sisudo, não trocava palavra à toa. Só cuspia, por assim dizer, algumas palavras para o gasto. Quando chegou num dia chuvoso na praça Albertine no ônibus das quinze horas sentiu que estava pisando no lugar certo; na terra onde deitaria morada até que a morte o levasse para outra vida melhor. E, assim, Pretonildo Pacífico deitou amarras na bucólica cidade e, abriu o bar “ URRO DE LEÃO” na rua Cizino Freitas, número 65.
No começo das atividades comerciais o bar vendia bebidas e belisquetes e, atendia a freguesia que gostava de dar umas e outras talagadas, sempre acompanhados de comentários jocosos e atrevidos. Passado algum tempo o enigmático comerciante passou a abrir o bar somente após as dezenove horas e instalou sobre o balcão uma lâmpada vermelha e enfeitou as paredes com papel celofane também vermelho. Com alguns golpes de marreta derrubou as paredes de um cômodo e instalou no canto uma sonata e, para terminar, encheu de garotas atrevidas, vindas todas da capital. No início foi um banzé dos diabos, A sociedade Cordoaliense botou a boca nos trombones. Mas, tudo em vão, mesmo por que o frequentador mais assíduo era o Doutor Delegado Josenildo Paranhos. De nada também adiantou os reclamos do padre Pedregoso e dos coroinhas. Pontualmente, às sete horas da noite, a luz vermelha se acendia e a imoralidade reinava dentre as quatro ou mais paredes do bar “URRO DE LEÃO”.
Para resolver o impasse a Sociedade Irmãs do Espírito Santo, constituída pelas abonadas e gorduchas matronas Cordoalienses se reuniu após muita discussão chegaram a conclusão de que só uma pessoa poderia devolver a moralidade à cidade: FRENEGILDO FREITAS e seu rabo-de-arraia. Conversa vai, conversa vem e convenceram o nosso herói (será?) a tomar atitudes com o imoral Pretonildo, que, argumentaram: “Com um rabo-de-arraia bem aplicado ele voa para outras bandas e deixa em paz nossos maridos.” Dito e feito.
A noite ainda estava capengando quando Frenegildo aportou no bar “URRO DE LEÃO”e, peremptoriamente gritou: “Nêgo do satanás, sai da toca que aqui tem homem pra te mandar pros infernos.” As últimas sílabas de “infernos” ainda estavam no ar, quando saiu em mangas de camisa e calção de brim azul o disforme mortal. Cumpre avisar o amigo leitor que ele tinha passado sebo de carne de bode velho nas pernas que além de deixá-las luzidias também as deixavam terrivelmente escorregadias. Este artifício foi a “pedra no caminho” do “rabista” Frenegildo ( só mesmo o inigualável poeta Drumond para entendê-lo).
De um salto mirabolante Frenegildo aplicou o golpe. Mas, que decepção. Caído no chão sujo do bar o “rabista” contemplava o seu rival em pé e ainda rindo em gargalhadas. Não desanimou e tentou se levantar para aplicar outro golpe, quem sabe o mortal, mas, ficou só no intento, pois, sem dar uma palavra; sem avisar o energúmeno aplicou-lhe um bofetão no pé da orelha esquerda, para em seguida dar-lhe um pontapé nas partes baixas deixando-o desmaiado e sangrando pelas ventas. Coube ao anão Gurupita Pedroso arrastar o moribundo pelas calçadas até a pensão “Prato Feliz” onde ele permaneceu desmaiado e acamado por vários dias. “Quando numa bela manhã de setembro a passarinhada fazia algazarra na laranjeira ele acordou e foi interpelado pela senhora Bresália Fortuna, que, sem dó nem piedade perguntou: Frenegildo você vai voltar no bar “URRO DE LEÃO” para lavar sua honra”?
Com os olhos esbugalhados e num esgar de dor respondeu: “Eu tô louco por acaso? E, arrematou: EM TOCA DE JAGUATIRICA, PREÁ, NÃO ENTRA.” E, desabou num sono secular.
Frenegildo Freitas apareceu em Cordoália das Neves em uma noite de escuridão total. A Lua estava em greve. Já por vários dias ela não dava sinais de vida. Os pacatos moradores da Vila evitavam sair à noite para não terem maiores transtornos com algum gatuno, ou então, alguma alma penada, visto que o cemitério “Recanto da Saudade” ficava bem próximo da praça principal. Uma hora ou outra, um mais afoito percorria as ruelas vazias e escuras com passos apressados em busca do abrigo que pudesse protegê-lo dos perigos escondidos nas sombras da noite. Muito raro era encontrar um casal de namorados sob a proteção de uma marquise se entregando às delícias do amor. Foi nesta condição que Frenegildo aportou com seus parcos pertences na pensão “Prato Feliz” de propriedade da viúva Bresália Fortuna. De imediato a matrona tentou induzi-lo a procurar outro local para ele fincar pé, mas, depois de ouvir a sua ladainha ela se condoeu e preencheu o livro de registro de hóspedes dando-lhe o quarto ao lado do único banheiro do imóvel. Por esta noite e as duas consecutivas Frenegildo não deu as caras na rua. Tratou sim, de descansar o corpo moído pela viagem no lombo do burro Praxedes. Só depois que sentiu o corpo e os músculos em ordem e, principalmente as pernas é que ele deu ares ao povinho do lugarejo. Sem maiores preâmbulos chegou ao bar “Alvorada”; sentou-se num banco e pediu um martelo da melhor pinga da região. De imediato, a negra Alfonsina lhe serviu a bebida. Talagada vai, talagada vem e ele indiferente ao movimento do bar e da rua se pôs a mordiscar um palito de fósforo e sem maiores preâmbulos cuspia a saliva pegajosa e escura no piso sujo e encardido do bar. Neste ínterim deu entrada no boteco o anão Gurupita Pedregoso. Desde que o circo “Uma noite em Moscou” retirou os trapos de lona da cidade, o anão resolveu ficar instalado numa das casas da rua “Pintão AthaÍde”, onde o recebeu com carinho a donzela Tetê Carneiro já entrada na casa dos sessenta anos( Nunca se casou, por isto era tida por todos uma donzela). Bem, num piscar de olhos, o intrigante anão perguntou à queima-roupa para o Frenegildo o que ele fazia de melhor. O nosso herói ( ou quase) respondeu sem embaraço algum de que ele era campeão em rabo-de-arraiá. “Rabo-de-arraia?”. Perguntou espantado o gorducho anão. “Isto mesmo”, respondeu Frenegildo sem se dignar a abaixar os olhos e fitar o pobre anão. Como um rastilho de pólvora aceso a notícia percorreu todos os becos; buracos; ruelas; barracos; casas e até mesmo o cemitério se viu tomado pela notícia bombástica a ponto do coveiro Pestanildo declarar feriado no campo santo.
Por uns meses Frenegildo gozou de sua reputação de briguento imbatível em rabo-de-arraia. A primeira demonstração de sua habilidade “rabista” aconteceu numa quermesse na fazenda do Major Fragata. A festa ia de vento em popa quando um valentão cismou de passar a mão nas curvas da donzela Nenê Pintassilgo; moçoila dos seus dezesseis anos e cheia de fricotes. Com gritinhos estridentes ela chamou a atenção do Frenegildo que sem perguntar isto ou aquilo, aplicou um rabo-de-arraia no galanteador que, sem despedir do Major voou por sobre as barracas e foi aterrissar no curral de bezerros, onde ficou a noite inteira e só acordou para mamar nas tetas da vaca Favorita e desde então passou a berrar como um garrote desmamado. A fama de “rabista” de Frenegildo correu o sertão. Tornou-se imperioso conhecer o mais famoso aplicador de rabo-de-arraia das redondezas. E, assim, desfrutando de sua habilidade com as pernas ele foi vivendo e levando a vida em calmaria, até que...
Até que um dia também aportou em Cordoália das Neves um sujeito esquisito. Era esquisito por completo, tanto na carcaça, quanto no gênio. Tinha o corpo disforme. Era pequeno nas partes baixas e avantajado nas partes altas. A pele não tinha classificação de cor: ora era escura; ora era negra; ora era parda, mas, nunca branca. Parecia até que era um camaleão disfarçado de gente. Tinha os olhos encavados no rosto e nunca, mas nunca mesmo brilharam por alguém ou algum fato. Eram frios como os olhos de um urutu. Sisudo, não trocava palavra à toa. Só cuspia, por assim dizer, algumas palavras para o gasto. Quando chegou num dia chuvoso na praça Albertine no ônibus das quinze horas sentiu que estava pisando no lugar certo; na terra onde deitaria morada até que a morte o levasse para outra vida melhor. E, assim, Pretonildo Pacífico deitou amarras na bucólica cidade e, abriu o bar “ URRO DE LEÃO” na rua Cizino Freitas, número 65.
No começo das atividades comerciais o bar vendia bebidas e belisquetes e, atendia a freguesia que gostava de dar umas e outras talagadas, sempre acompanhados de comentários jocosos e atrevidos. Passado algum tempo o enigmático comerciante passou a abrir o bar somente após as dezenove horas e instalou sobre o balcão uma lâmpada vermelha e enfeitou as paredes com papel celofane também vermelho. Com alguns golpes de marreta derrubou as paredes de um cômodo e instalou no canto uma sonata e, para terminar, encheu de garotas atrevidas, vindas todas da capital. No início foi um banzé dos diabos, A sociedade Cordoaliense botou a boca nos trombones. Mas, tudo em vão, mesmo por que o frequentador mais assíduo era o Doutor Delegado Josenildo Paranhos. De nada também adiantou os reclamos do padre Pedregoso e dos coroinhas. Pontualmente, às sete horas da noite, a luz vermelha se acendia e a imoralidade reinava dentre as quatro ou mais paredes do bar “URRO DE LEÃO”.
Para resolver o impasse a Sociedade Irmãs do Espírito Santo, constituída pelas abonadas e gorduchas matronas Cordoalienses se reuniu após muita discussão chegaram a conclusão de que só uma pessoa poderia devolver a moralidade à cidade: FRENEGILDO FREITAS e seu rabo-de-arraia. Conversa vai, conversa vem e convenceram o nosso herói (será?) a tomar atitudes com o imoral Pretonildo, que, argumentaram: “Com um rabo-de-arraia bem aplicado ele voa para outras bandas e deixa em paz nossos maridos.” Dito e feito.
A noite ainda estava capengando quando Frenegildo aportou no bar “URRO DE LEÃO”e, peremptoriamente gritou: “Nêgo do satanás, sai da toca que aqui tem homem pra te mandar pros infernos.” As últimas sílabas de “infernos” ainda estavam no ar, quando saiu em mangas de camisa e calção de brim azul o disforme mortal. Cumpre avisar o amigo leitor que ele tinha passado sebo de carne de bode velho nas pernas que além de deixá-las luzidias também as deixavam terrivelmente escorregadias. Este artifício foi a “pedra no caminho” do “rabista” Frenegildo ( só mesmo o inigualável poeta Drumond para entendê-lo).
De um salto mirabolante Frenegildo aplicou o golpe. Mas, que decepção. Caído no chão sujo do bar o “rabista” contemplava o seu rival em pé e ainda rindo em gargalhadas. Não desanimou e tentou se levantar para aplicar outro golpe, quem sabe o mortal, mas, ficou só no intento, pois, sem dar uma palavra; sem avisar o energúmeno aplicou-lhe um bofetão no pé da orelha esquerda, para em seguida dar-lhe um pontapé nas partes baixas deixando-o desmaiado e sangrando pelas ventas. Coube ao anão Gurupita Pedroso arrastar o moribundo pelas calçadas até a pensão “Prato Feliz” onde ele permaneceu desmaiado e acamado por vários dias. “Quando numa bela manhã de setembro a passarinhada fazia algazarra na laranjeira ele acordou e foi interpelado pela senhora Bresália Fortuna, que, sem dó nem piedade perguntou: Frenegildo você vai voltar no bar “URRO DE LEÃO” para lavar sua honra”?
Com os olhos esbugalhados e num esgar de dor respondeu: “Eu tô louco por acaso? E, arrematou: EM TOCA DE JAGUATIRICA, PREÁ, NÃO ENTRA.” E, desabou num sono secular.
domingo, 22 de abril de 2018
A PAIXÃO E A INTELIGÊNCIA
A paixão e a inteligência são tão equidistantes quanto
O Sol e a Lua.
A paixão acomete os crédulos nos sentimentos alheios,
Como se eles realmente fossem verdadeiros.
São almas que estão à deriva de um grande e real amor,
E, por isto, se entregam de corpo e alma, sem prever as consequências
Futuras; os desenganos e as decepções que certamente virão em
Algum momento deste doentio relacionamento.
A paixão é momentânea, é como a fogueira acesa com palhas e,
Nunca com madeira de lei. É impossível desejar que a paixão permaneça.
É o mesmo que pedir lume à fogueira extinta.
Geralmente os que se declaram no ardor da paixão um dia, não importa, quando,
Causarão uma decepção incomensurável no companheiro (a) sem se importunar
Se estão sendo ferinos; impiedosos e, muitas vezes, sem escrúpulos nos atos
Praticados para alcançarem os seus intentos, que geralmente são malévolos.
Já Inteligência permite que se faça uma escolha saudável de um grande amor.
Ela, também permite que o coração não se torne roto, maltrapilho e inerte.
Pessoas inteligentes sabem distinguir o galanteador falso do honesto.
Eu, sei, que é muito difícil escapar da "lábia" de um doador de flores,
Ou, de castelos; ou, então de uma vida regada a sonhos e imenso amor.
Ah, quisera Deus que estes enganadores de corações paguem suas maldades...
Mas... FICAM AQUI DOIS SÁBIOS DITADOS POPULARES:
"EM CADA CABEÇA, UMA SENTENÇA".
" A CADA ALMA, SUA PALMA."
ALDO DE AGUIAR
quinta-feira, 19 de abril de 2018
PROSANDO & PROVANDO... DE POESIA.
A VIDRAÇA
Toda tarde ela desfilava frente à vidraça
Do casarão onde eu me postava empertigado.
Para mim ela sempre foi um diamante sem jaça;
Uma joia para se ter incrustada no peito.
Vestida de normalista com a trança esvoaçante
Ela sabia que eu a observava pela vidraça.
Muitas vezes sorria provocando-me alhures
Sem se importar se emburrava ou achava graça.
Por ela eu me fazia estátua de mármore frio,
Embora o meu hálito turvasse a polida vidraça.
Assim, inertes, éramos, partes, do mesmo vidro.
Por um século em que me fiz jovem e adulto senil
Fui intrépido caçador e, ela, a minha sensual caça.
Porém, uma tarde, ela não passou e, a vidraça, se partiu.
Poema retirado do Livro : UMA MULHER INTRIGANTE... A ser publicado em breve.
quarta-feira, 18 de abril de 2018
DUAS DATAS SIGNIFICATIVAS
Hoje, comemoramos duas datas significativas:
1. DIA DA LITERATURA INFANTIL
2. ANIVERSÁRIO DO CÉLEBRE ESCRITOR TAUBATEANO MONTEIRO LOBATO
Sobre o Dia da Literatura Infantil, tenho a dizer que, ainda não temos um público significativo, voltado para a Literatura.
O que nos deixa mais esperançosos é saber que as escolas estão promovendo sessões de leitura, oficinas, palestras e visitas às bibliotecas públicas.
Da minha parte tenho feito o possível para divulgar o hábito da leitura entre os jovens com Projetos de incentivo à leitura e publicação de três obras Ecológicas, a saber:
1. A Ecologia no sítio do Taquaral ..mais de trinta mil exemplares vendidos nas escolas,
2. O Super-Bem-te-vi
3. A Menina Que Soltava Pássaros
Sobre o Dia de Aniversário de Monteiro Lobato me sinto honrado em tê-lo como meu Patrono na Academia Taubateana de Letras, onde ocupo a cadeira número 1.
Seria interessante e benéfico para a cultura Brasileira que todos os cidadãos, independente de credo, idade e raça, lessem mais livros, ao invés de fugirem das livrarias e se aproximarem mais de bares e recantos que não contribuem com nada para a Cultura Nacional.
Parabéns ao escritor Taubateano Monteiro Lobato e ao Dia da Literatura Infantil.
Um lembrete:
Taubaté, por Lei Municipal, foi declarada Capital da Literatura infantil. Está gravado na entrada da cidade, para quem entra pela JK.
1. DIA DA LITERATURA INFANTIL
2. ANIVERSÁRIO DO CÉLEBRE ESCRITOR TAUBATEANO MONTEIRO LOBATO
Sobre o Dia da Literatura Infantil, tenho a dizer que, ainda não temos um público significativo, voltado para a Literatura.
O que nos deixa mais esperançosos é saber que as escolas estão promovendo sessões de leitura, oficinas, palestras e visitas às bibliotecas públicas.
Da minha parte tenho feito o possível para divulgar o hábito da leitura entre os jovens com Projetos de incentivo à leitura e publicação de três obras Ecológicas, a saber:
1. A Ecologia no sítio do Taquaral ..mais de trinta mil exemplares vendidos nas escolas,
2. O Super-Bem-te-vi
3. A Menina Que Soltava Pássaros
Sobre o Dia de Aniversário de Monteiro Lobato me sinto honrado em tê-lo como meu Patrono na Academia Taubateana de Letras, onde ocupo a cadeira número 1.
Seria interessante e benéfico para a cultura Brasileira que todos os cidadãos, independente de credo, idade e raça, lessem mais livros, ao invés de fugirem das livrarias e se aproximarem mais de bares e recantos que não contribuem com nada para a Cultura Nacional.
Parabéns ao escritor Taubateano Monteiro Lobato e ao Dia da Literatura Infantil.
Um lembrete:
Taubaté, por Lei Municipal, foi declarada Capital da Literatura infantil. Está gravado na entrada da cidade, para quem entra pela JK.
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