segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A CRIAÇÃO E DISSOLUÇÃO DE UMA GRAVURA


A pedido de não sei quem resolvi pintar uma gravura e satisfazer o desejo de não sei quem de ter em sua posse uma tela pintada por mim. Foi uma decisão bem difícil, visto que, há muito tempo, não pinto nada, nem um guardanapo sequer. Bem, já que tinha tomado a decisão de me transmudar em "artista" fui à luta; ou melhor, fui ter aos momentos divinos que antecedem a criação.
Assim, tomado de uma inspiração que fluía para meu cérebro do Universo passei aos preparativos:

De um gato angorá que ronronava sonolento sobre as almofadas de cetim do amplo sofá, retirei os finos pelos do bigode e fiz o pincel;
Das asas sedosas, delgadas e transparentes das incontáveis borboletas que dardejam pelos jardins fiz a tela;
Das penas multicoloridas de um belo espécime de galo que reinava altivo, sedutor e garboso no terreiro de minha casa, fiz as tintas;
Da carapaça quitinosa de um estupendo besouro que ziguezagueava pela grama verde do pasto fiz a palheta;
Do recôndito de minha alma, escondida no mais profundo do meu EU, com medo de que a liberte do corpo, fiz-a, minha gôndola de inspiração...

E COMECEI A TRABALHAR, A CRIAR...
E, CRIEI...
CRIEI uma gravura de tamanho desproporcional a que queria;
CRIEI uma tela que mais parecia uma vela dependurada em mastros de navios fantasmas;
CRIEI uma gravura que por não ter olhos para ver, vi com os olhos da emoção e, o que vi, gostei.

ENFIM, a obra de arte estava pronta em minhas mãos, mas...
MAS, ficou por muito pouco tempo e num átimo se desfez , sumiu, como se estivesse dentro de um redemoinho.
O que aconteceu?

Um pardal pousou nela e enquanto gorgeava o pincel se transmudou num gato e ele rasgou pedaços da tela com as unhas aduncas e ponteagudas na captura da avezita;
Uma flor entreabriu suas pétalas e numa algazarra febril pedaços da tela se transmudaram em borboletas que dardejaram sobre a flor, deixando vazios incomensuráveis na gravura pintada;
Alguns insetos mais incautos pousaram no que restou da tela e as gotas de tintas se transmudaram em um galo, que com bicadas certeiras em busca dos apetitosos bichinhos aumentou o rombo do tecido já roto;
Ressabiado que fosse pisado por mim a palheta se transmudou em um besouro que batendo suas asas desajeitadamente desapareceu na neblina que começava a me envolver;
Assustada e temerosa das futuras consequencias a minha alma num assopro sublime fluiu e abandonou o meu corpo.
Em décimos de segundo fiquei apalermado com pedaços esparsos de minha criação presos dentre os dedos sujos de tinta.
ASSIM, CRIEI UMA OBRA DE ARTE, QUE POR SER DIVINA RUIU EM PEDAÇOS, OU MELHOR, DISSOLVEU-SE COMO FLOCOS DE NUVEM.

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